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9 de novembro de 2015

Cortinas

Foto: Venetian blind, detail - No machine-readable author provided

Mamãe tinha uma cortina longa de pano
em que frequentemente eu me metia:
ora era um vestido de princesa
ora um castelo meio mole
ou uma floresta que eu percorria.
Também era um balé a que eu assistia
toda vez que o vento batia:
levantava e baixava feroz
ou inchava e murchava tranquila.

Lembrei a cortina, que no trilho corria,
porque a persiana de alumínio (que eu tenho agora)
recomeçou na janela sua latomia:
Téim, Téim, Téim.

Meu filho de joelhos na cama
às vezes põe entre os dentes uma das lâminas:
é James Dean ou Marlon Brando com arma branca
ou apenas seu inconsciente devorando
uma cortina com pouca chance pra fantasia.

O vento bate
e não é vestido, castelo, floresta nem bailarina:
só uma cantora - e como desafina!


24 de setembro de 2015

O Catálogo de Endereços de BH

Tela: Clovis Gauguin with a book (1886), Paul Gauguin

Para Jaime Augusto

Pra criança de 3 anos e meio, as letras são enigmas:
"Isso é L, mamãe?"; "Isso é i?".
(O L minúsculo e o i maiúsculo se parecem.)
Onde está Braúnas, meu filho lê Brasil.
E teima se desfaço o engano.
São Luiz é São Paulo,
São Bernardo é São Paulo
e São Francisco também.
"É sim, mamãe. Fala que é sim!"
Um dia ele cresce e entende:
um bairro não é um país
e os santos se confundem,
mas cada um tem seu altar.
É possível ainda que se espante (como eu):
as palavras mais caras,
por mais que a gente torça,
não se lêem em nenhum lugar.


24 de maio de 2015

Mater dolorosa

Tela: Det syke barn (1896), Edvard Munch

Me deu olhos aflitos
cravei dois de cansaço;
pediu meu regaço
só tinha galho seco:
quando insistiu, desabamos.


14 de março de 2015

Súplicas

Tela: Mother and Child (1890), Mary Cassatt

Que vozinha é essa
que vem do quarto escuro?
"Mamãe."
Ela pede consolo
ou vem me consolar?
"Papai."
Fina e firme
feito organdi:
"Mamãe".
Vai sumir
quando o sono chegar,
"Papai".
Numa noite fria
que num dia há de vir
- "Mamãe" -
ela vai se encorpar
e parar de chamar
"Papai".
E no quarto escuro
antes de dormir
("Mamãe..."),
vou apertar meus olhos
e pra Deus suspirar:
"Papai...".


15 de novembro de 2014

Let it Go

Tela: Mutterliebe (1911), Lovis Corinth

A cada dia me despeço
do meu filho.
Constantemente
ele está de partida.
Cada vez que sai
a paranoia pergunta: "Será
que vai retornar?".

Mas há despedidas
que acontecem
sob meu nariz
e minhas asas:
manhas
dobras
balbucios,
que ele deixou lá trás.

Os pelos se espraiam
se estica
e deixa de ser
meu bebê
para virar um rapaz.

Moço feito,
muito antes de partir
o coração de alguém
todo dia
enquanto parte aos pouquinhos,
vai partindo o meu também.


30 de janeiro de 2014

Super-Molengas, desativar!


Há rapazes que, ao contrário do Papa, não querem NADA

com a dureza: são "super-herois" do comodismo

Foto: grafite anônimo de Francisco como super-herói,
feito em uma rua de Roma (Itália)
próxima ao Vaticano. Fonte: em.com.br

Como mãe de um rapazinho, o tópico me diz respeito diretamente: acerta em cheio como a seta no centro do alvo. Podem ser apenas casos isolados ou uma amostra verificada e autêntica de um fenômeno maior. "O que é, Ana Paula?" É isto: floresce toda uma geração de homens-molenga. O quê? Que p... é essa?

Explico: aqui e ali, pululam exemplos de rapazes sem ambição. E nem falo do famoso sonho de ser "o maior jogador de futebol do mundo, de todos os séculos e séculos". Falo de ambições comezinhas: instalar um chuveiro elétrico; providenciar o conserto de um teto que ameaça verter água no próximo pé d'água ou procurar - e conseguir! - um 2º emprego (já que tem meia hora do dia vaga), a fim de incrementar a renda.

Nossos rapazes - ou alguns deles - preferem "coçar" (sim, fui vulgar) e esperar que tudo se resolva - lê-se: probleminhas cotidianos ou bem mais sérios - por si só. Eles não têm motivação nem força física nem moral suficientes pra tirar o traseiro (xi... Vulgar de novo) do sofá e fazer como muita gente: ir à luta!

Character co-created by Will Eisner.
Image from Wonderworld Comics #3 (1939)

Quando um Super-Molenga, que pode ter canudo ou nem haver passado na porta da universidade, encontra uma mulher financeiramente (friso: financeiramente) bem-sucedida, a mãe dele sai logo com esta: "Até que enfim meu filho achou a 'pessoa certa'! Boa, que vai dar um 'jeito' na vida dele!". Não dá. Não dá mesmo. Um Super-Molenga se contenta em ser sustentado. Ele finge que trabalha e a sua "eleita", a mulher que "conquistou", finge que acredita.

Aliás, os Super-Molengas - que podem até ter emprego, mas que geralmente saltam de bico em bico - costumam estar com um destes 2 tipos de companheira: OU a que depende do (parco) dinheiro dele OU a autossuficiente que, por beirar ou ultrapassar os 50 anos de idade, pensa que não vai "conseguir coisa melhor". Então, todo mundo sai ganhando nesse tipo de relação. Ou perdendo.

26 de janeiro de 2014

Barata Tonta: ele faz 2 anos!

(Fotografia: "Barata Tonta" - acatolica.blogspot.com)


Sempre AMEI a canção Barata Tonta, de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Muito, muito provavelmente é a minha preferida dos dois. Porém, sempre a cantei para um dos homens por quem me apaixonei ao longo de quase 40 anos de vida!... Só após (friso: após) haver me tornado MÃE, percebi que ela foi feita para uma criança! São eles - nossos filhos - que "aprontam" e que "depois nos dão um beijo, nos fazem um gracejo e nos desmancham todas"!...

Para o rapazinho que entrou na minha vida (na minha barriga!) em maio de 2011 e que completa 2 aninhos em 2014, eu ofereço este Post do Blog A Católica. Todas as fotos - friso: todas - foram tiradas em Belo Horizonte (Minas Gerais, BRASIL) e São Paulo capital (BRASIL) entre dezembro de 2013 e 19 de janeiro de 2014 pela mamãe Barata Tonta do aniversariante! Ao final, você pode curtir toda a beleza da canção, através de um vídeo/áudio do You Tube. Boa degustação!

28 de maio de 2013

Tia Vivi faz 30 anos com a Larissa na barriga

Pela 3ª vez, A Católica escreve um Post para a Melhor Amiga,
que vive na África do Sul e espera pela 1ª filha: Larissa


Imagem: Jaime Augusto, 1 ano e 3 meses, cumprimenta Tia Vivi, 30 anos
Fotografia de Ana Paula (acatolica.blogspot.com)

Jaime Augusto cumprimenta Tia Vivi, mãe da Larissa
Fotografia de Ana Paula (acatolica.blogspot.com)


Belo Horizonte, 28 de maio de 2013.

Querida Vírus,

Eis-me aqui escrevendo outra carta para você (a 3ª!) no Blog A Católica. Hoje é um dia especial, porque você celebra aí, no outro lado do Atlântico, 3 décadas de vida!... Você foi - segue sendo - uma flor linda, deslumbrante, que aconteceu na nossa vida, marcando-a definitivamente com uma alegria atrás da outra. Não dá para conceber o mundo sem a sua presença. Só felicidade para todos nós que a conhecemos!

E celebrar 30 anos tão pertinho da Larissa, que se desenvolve em paz e com muita saúde dentro de você, é melhor ainda!... (Que Deus assim conserve.)

Só posso desejar que Ele, pela intercessão de Nossa Senhora, derrame bênçãos e Graças sobre você, a sua vida, a Larissa, o Shailen, seus pais, seu irmão, seu sobrinho Gabriel Augusto e todos aqueles com quem você se encontrar. Também sobre todos aqueles a quem você ama. E aqueles que, por qualquer razão (tola), possam torcer o nariz pra você!... Bênçãos e Graças sobre amigos e inimigos. Sempre.

A vida aqui segue o seu ritmo cotidiano: cuidar da casa, cuidar do Jaime Augusto, ler quando dá. São páginas aparentemente desinteressantes...

... Porém, como aprendi com o meu avô Raul a ver a beleza em tudo, há horas em que suspiro e mal posso acreditar em como tudo é bom!... Tão bom. Dia após dia, cuidar para que nada desencaminhe, que tudo siga o seu ritmo sem surpresas desagradáveis. Minhas grandes emoções não estão em viagens intercontinentais (que não tenho condições de fazer), e sim, dentro de mim mesma, da minha cabeça, que borbulha de ideias, de poesia, da capacidade de perceber que, haja o que houver, a beleza existe!...

30 de abril de 2013

Post Nº 300 do Blog: carta à Viviana Paula!

Rasgue o envelope e leia junto a Minha Melhor Amiga
a carta que lhe escrevi e envio, através do Blog A Católica.

Não se avexe: sinta-se, também, um destinatário...

Trabalho de Ana Paula (acatolica.blogspot.com) sobre imagem de Karen Arnold

Belo Horizonte, 30 de abril de 2013.

Fofinha do Meu Coração,

Cadê você? Achei que fôssemos trocar mais figurinhas durante a sua gravidez... Já sei: estar grávida e ser enfermeira coordenadora e professora de universidade não é mole, certo? Falta tempo para tudo e, sobretudo, para o principal: descansar. Esta, Deus "vai ficar me devendo": beijar a sua barrigona de grávida. Barrigona que, quando era barriguinha na largura e no comprimento, eu não cansava de beijar. Meu bebê vai ter um bebê!...

E aí? O pimpolho ou a pimpolha continua mexendo muito? Eu passava horas (eu disse horas) dos meus dias quietinha na cama, paradinha, porque li - e como eu li durante a minha gravidez!... - que desse jeito a mãe consegue perceber mais os movimentos do neném. OK. O nome correto é "feto". Mas, para mim, já era o meu Jaime Augusto. De ponta cabeça, com os pezinhos já esmagando o meu coração...

Lembra que da última vez em que conversamos eu disse que queria que "ele já estivesse na faculdade"? Hahahaha Esse sentimento passou. Coisa de mãe cansada. Você vai ver: Mamãe Gali diz que filho nos chupa até o osso e lambe os buraquinhos dos olhos e ela está correta. Vai ver que por isso o Dia das Mães é a segunda data de maior faturamento do comércio (a primeira é o Natal): todo mundo grato pelo trabalhão que as mães têm para criar uma criança.

E aí? Já pode se considerar mãe, viu? O que vai ganhar, então, de Dia das Mães do Papai Shailen? Eu pedi ao Farney um DVD sobre a vida de Santo Agostinho, porém, mudei de ideia e vou querer um livro sobre ele: Compreender Agostinho, da editora Vozes. É...

... Continuo viciada em ler! Hoje mesmo o pessoal daquela loja que adoro, Tok e Stok, veio aqui em casa instalar a nossa quarta estante! Todas cheias de livros. Quando Jaime Augusto vai pra cama, Farney e eu vamos pra mesa do "quarto de estudos". (Achou que eu ia dizer outro lugar, hein, danadinha? Hehehe) Ele devora os livros de Direito. Eu, os de Teologia. E pensar que nos conhecemos, cerca de 13 anos atrás, numa biblioteca! Hahahaha

30 de janeiro de 2013

Jaime Augusto faz 1 ano

Meu filho nasceu há um ano, na Hora da Misericórdia.
Neste Post do Blog A Católica, eu conto
tudo o que a maternidade me trouxe. (E me tirou...)


Imagem: na foto, tirada há 15 dias, Jaime Augusto
dá as Boas-Vindas à prima Manuela Camargo.
Ana Paula~A Católica - acatolica.blogspot.com

Pode haver coisa mais linda do que acompanhar de pertinho, de camarote, um ser humano se desenvolver? Crescer fisicamente, treinar habilidades, vencer os próprios limites (ainda são tantos!...) e conquistar os espaços?

Há exatamente 1 ano, "na Hora da Misericórdia" - como bem lembrou a minha Tia Olímpia -, Jaime Augusto chegou a este mundo. Desde então, desconheci o que é dormir uma noite toda sem interrupções, o que é assistir à TV quando eu bem entender, como abrir um livro entre 9h da manhã e as 10h da noite e conseguir ler ao menos uma página inteira, bem como o prazer de sair para passear, sozinha, sem hora pra voltar.

Sim: houve perdas. Fiquei sobretudo sem tempo. Sem tempo para mim mesma.

Porém, houve um ganho e tanto: nada que eu, Ana Paula, vivi até agora em 36 anos de vida se equipara ao prazer de ver Jaime Augusto me abraçar apertadinho e deslizar suas mãozinhas pelo meu cabelo, quando o sono lhe pesa. Adoro sua gargalhada, adoro quando expressa fonemas ininteligíveis e quando se equilibra sobre um dos joelhos, tentando ficar de pé (ou ao menos um palmo mais alto do que o nível do chão).

7 de setembro de 2012

Arrogância

Muitas mamães de Primeira Viagem
empinam o nariz e dizem: "Não preciso de ninguém".
A realidade mostra como elas estão enganadas!...


(Fotografia de Vera Kratochvil)

Ando me divertindo à beça. Desde que o sufoco dos primeiros meses de maternidade passou e que agora é só (quase só) alegria, venho assistindo de camarote a muita mamãe de Primeira Viagem "quebrar a cara" - como dizemos aqui no Brasil. Ninguém - a não ser que esteja passando ou já passou por isto - faz noção do tombo que é na vida de uma mulher a chegada do primeiro filho. São meses de altos e baixos (mais baixos do que altos) nos quais tudo - eu escrevi tudo - o que você suplica a Deus são 15 minutos de sono tranquilo, sem a interrupção do choro de uma criança.

Falei com os meus pais, no último mês de gravidez, que eu precisaria ficar de 4 a 7 dias (!!) na casa deles, até que eu aprendesse a trocar fraldas e me sentisse segura para dar banho no meu neném, o fofíssimo Jaime Augusto. Quando eles me disseram que a casa deles estaria aberta a "visitas", nem os 4 ou 7 dias eu queria mais, porque, sejamos francos, receber parentes e amigos nos primeiros meses após o nascimento de um filho é de lascar - como também dizemos aqui no Brasil.

Você - no caso, a mãe - está detonada pelos pontos do parto, que incomodam e atrapalham os momentos de toilette; com os bicos dos seios superdoloridos, em carne viva, sangrando de (tentar) amamentar o bebê; extremamente cansada por não dormir, já que recém-nascidos não sabem a que horas é dia ou madrugada e vem alguém (ou alguéns) bater a sua porta para "visitar" e ficar de uma a 3 horas no seu quarto, literalmente em cima de você e do seu filho, falando sobre assuntos que não interessam. Sejamos honestos.

Por "melhor intencionadas" que as visitas sejam, os primeiros meses pertencem ao chamado ninho: mamãe, papai e bebê. Também, ao círculo mais íntimo deles: irmãos, avós e, no máximo, bisavós - a propósito, Jaime Augusto tem duas: minha Vovó Antonieta e Dona Erminda.

18 de abril de 2012

A Sessão da Tarde e o aborto de anencéfalos

Um filme exibido na Rede Globo tem muito a ver
com as mulheres que optam por abortar
um feto sem partes do cérebro


(Imagem de Raoli)


Sou do tempo em que a Sessão da Tarde da Rede Globo de Televisão passava filmes decentes. Digo: dignos de serem vistos. Pela minha mente perfilam-se os longas do maravilhoso comediante Jerry Lewis; dos Três Patetas; aqueles dos anos 1970 sobre acampamentos juvenis e relação pais e filhos; aqueles dos anos 1980 sobre cursos de verão e temáticas mais dramáticas como Só Resta uma Esperança (título que ganhou no Brasil), com o então jovem e gatíssimo Mark Harmon.

Pois um desses filmes de drama, do tempo em que a Rede Globo não tinha medo de pôr qualidade no conteúdo que nos oferecia à tarde, me veio hoje assim... Meio do nada. (Será?)

Não me lembro do título, nem dos atores. Só guardei o roteiro e - talvez - o nome da personagem principal: Izobel. Tratava-se da história de uma mulher de cerca de 40 anos de idade, divorciada, que reencontra o amor num homem cerca de dez anos mais moço. No final do filme - cena que mais me marcou -, o rapaz pichava no muro que dava para um túnel: "Izobel, eu te amo". Em letras pretas e garrafais.

O longa não discorria sobre uma história de amor água com açúcar (como dizemos aqui no Brasil). O cerne do roteiro abordava um drama (eu falei de "temática dramática", lembra?).

Izobel era uma mulher bonita, interessante, culta... Porém, não acreditava em si. Padecia - embora de jeito algum aparentasse isto - de falta de autoestima. Costumava pintar quadros, mas os anos de casada levaram-na, pouco a pouco, a abandonar a vocação. Há um momento no filme - e disto me recordo bem - em que ela resolve mostrar suas obras antigas para o novo namorado. Ele se surpreende, se entusiasma e a elogia: "Izobel, você é boa! Você é muito boa! Você é ótima! Você tem que voltar a pintar! Você tem que retomar!".

Izobel apela, xinga o namorado, diz que ele está "mentindo". Eles brigam. Até se separam.

Procurando entender a reação irada da amada, o jovem acaba descobrindo que seu ex-marido, na época em que ainda era casada, acabou com toda a confiança que ela tinha no próprio talento. Também se não me falha a memória, há uma cena na qual Izobel, em prantos, diz: "Eu sou ruim. Eu sou ruim. Ele [seu ex-marido] tinha razão. Eu não pinto bem...".

9 de março de 2012

Virei... MÃE!

... E mesmo que não tivesse me tornado uma,
aceitaria dócil a Vontade de Deus.
Todos temos dons intransferíveis para fazer frutificar


(Fotografia: Arquivo de Família)

finalmente, entrei para a categoria das MÃES. e vou lhe contar uma coisa, internauta d'A Católica: está sendo uma experiência bastante diferente. "diferente", não pra melhor nem pra pior. apenas... diferente. bem distante do que eu supunha. muito mais árduo, exigente, intenso. só não posso descrever (embora, confesso, adoraria fazê-lo), porque está tudo tão recente, que seria uma opinião precoce, afoita, descabida. deixaria aquele gosto de banana verde na minha e na sua boca e nenhum de nós sairia contente.

acompanho nas noites de sexta-feira, pelo canal de TV a cabo Discovery Home and Health, dois programas sobre salas de parto. o que eu experienciei não teve absolutamente nada, nada, nada a ver com o que aquelas mães norte-americanas passam. (a não ser, admito, pela peridural.) todo aquele sofrimento, aqueles gemidos, aquelas horas que custam a passar. os gritos lancinantes. não tive. minha dor veio depois.

com o passar dos dias e das semanas, fui me dando conta de que enquanto eu e meu filho - sim: é um rapazinho - vivermos, ele será responsabilidade minha. minha e do meu marido. contudo, "mais" minha. porque entendi bem rápido que o papel da mãe neste conto-de-fadas, nesta história encantadora e sonhada por muitos casais chamada Maternidade e Paternidade, o encargo da mãe é, de longe e incontestavelmente, maior, pesado. e intransferível.

daí, internauta d'A Católica, me veio um sentimento de solidão inexplicável, que nunca, nunca experimentei.

nem naquela vez, nos idos de 1997, quando peguei o ônibus errado e desci a vários (bote vários nisso) quarteirões da minha casa. no relógio, 23h e saí andando morrendo de medo, naquela quase escuridão (quase, porque havia as luzes dos postes). não tinha viv'alma nas ruas. ninguém. only myself. eu andando o mais depressa que podia, subindo e descendo dos meio-fios, dobrando esquinas e fazendo curvas, a fim de não cruzar com nenhum bandido tão sozinho quanto eu. fugindo da ausência. do silêncio. do imponderável.

11 de novembro de 2011

Canção contra o Aborto


Nota: Este Post d'A Católica é dedicado a todas as mulheres que já abortaram. Tenho um profundo respeito e compaixão por cada uma delas. Desejo que a misericórdia de Deus as atinja de tal forma, que possam perdoar a si mesmas e seguir adiante. Apesar de tudo, somos todos filhos amados Dele. Que a Misericórdia Divina também chegue a seus filhos que não nasceram.

Este Post também é dedicado a meu primo Flávio Augusto, pai do Gabriel Augusto, que em 1999 me apresentou um dos melhores CDs que conheço: The Miseducation of Lauryn Hill (1998), no qual consta uma das mais lindas canções já gravadas: To Zion. Segundo li, trata-se de uma obra autobiográfica, composta e cantada pela norte-americana Lauryn Hill. Acompanhe.

24 de outubro de 2011

Vamos falar de homens, grosseria e personalidade?

Gritar, ser rude e agredir não tem nada a ver com "personalidade forte".
Aqui, você reflete comigo sobre (alguns) homens e crianças malcriadas


(Fotografia de Vera Kratochvil)

Um dos meus programas favoritos na TV chama-se America's Next Top Model. É um reality show (mais um) sobre 14 modelos selecionadas por uma equipe para viverem juntas em uma casa. Ao longo da temporada, elas realizam cerca de 14 provas, que eliminam - uma a uma - as que tiverem o pior desempenho, até que reste uma única modelo, que receberá o título que dá nome à atração, algo como: "A Próxima Top Model Norte-Americana".

Se não conhece o programa - ou se o conhece bem - deve estar desapontado por uma pessoa religiosa, que se diz católica, interessar-se por algo aparentemente tão bobo, tão fútil, perdendo o seu tempo diante da TV. Acontece, internauta d'A Católica, que temporada após temporada - a atração é exibida por um canal de TV a cabo -, eu me divirto à beça observando como a vencedora é, geralmente, aquela que a maioria das garotas desprezam.

A mais feia, a mais alta, a mais desengonçada, a socialmente mais calada e desinteressante, que prefere ficar isolada num canto, costuma fazer fotos belíssimas. Justo ela tem um dom para ser fotografada, o qual se mostra apenas diante das câmeras e especialmente depois que as poses são reveladas diante dos jurados.

É engraçado que, temporada após temporada, os jurados - encabeçados pela também modelo e criadora do programa, Tyra Banks - cobram das candidatas "personalidade". "Você está bem nessa foto, mas falta... Personalidade!", dizem até mesmo para aquelas que acabam se tornando vencedoras. É angustiante mirar a cara linda das candidatas contorcendo-se para tentar captar o conselho: "Personalidade? Como? Quer dizer que 'eu não sou eu'?...".

Mais engraçado ainda é ver os mesmos jurados, que cobram das moças lindas "personalidade nas fotos", mandarem de volta para casa justamente aquelas concorrentes cheias de... Personalidade! Num dos episódios a que assisti, Tyra Banks diz a uma moça negra, fotogênica e super-simpática: "Você tem 'personalidade demais'. É perfeita para uma carreira de cantora ou de atriz, não de modelo. Tchau e... Boa Sorte!". Vá entender, internauta!...

Personalidade, de acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é "caráter ou qualidades próprias da pessoa"; "individualidade consciente". Se nos detivermos no primeiro significado, todo mundo tem personalidade - por mais que, às vezes, ela pareça apagadinha... Todavia, vamos no deter no segundo sentido, porque nem todo mundo tem consciência da sua individualidade (embora alguns se achem conscientes dela).

No mundo em que vivemos, confunde-se muito gritaria, grosseria e violência com "personalidade".

29 de agosto de 2011

Duas reportagens que me chocaram

Duas jornalistas trazem à tona discussões sobre a ÉTICA:
na primeira, mães decidem matar um dos filhos;
na segunda,
um engenheiro vende trabalhos plagiados a terceiros

(Fotografia de Petr Kratochvil)

Sempre tive dificuldade de escolher. Quando meus pais me diziam "Só tem dinheiro para um. Decida-se", eu entrava em pânico. Queria os dois ou os três. Queria tudo. Quando comecei a trabalhar e a ter o meu dinheiro, se gostava de um artista, não queria apenas o seu mais recente CD, mas todos os que ele lançou. Eu dava cheque pré-datado, dividia de mil vezes e levava tudo o que houvesse. Porque era impossível (para mim) ficar com um só. Porque para coisas bonitas, como a arte, sou partidária do "quanto mais, melhor".

Ontem, folheando a revista Época desta semana (29 de agosto de 2011 - Nº 693), descobri algo que me desconcertou. Há pessoas neste mundo bem diferentes de mim: elas têm habilidade e precisão para escolher. Para elas, ainda que se diga respeito não a objetos, e sim a algo valioso e bonito como A Vida, "quanto menos, melhor".

O que quero dizer é: de acordo com a reportagem Destruição assistida, da jornalista Cristiane Segatto, há pessoas neste mundo que optam por qual dos dois fetos, dentro de uma barriga, durante uma gravidez, deve sobreviver. Isso mesmo que você leu. Por razões sobretudo econômicas, a mãe dá cabo do outro, esteja ele se desenvolvendo saudavelmente ou não, através de um processo denominado "meio aborto".

É difícil nos dias de hoje sabermos de algo que realmente nos choque. É que a banalização da violência, da corrupção, da impunidade, da vulgaridade, da falta de respeito e da imoralidade é tanta, que temos a sensação de "já ter visto de tudo". É raro conhecer algo e chegar à conclusão: "Nossa. Agora fiquei sem chão". Pois foi essa a reação que tive, internauta d'A Católica, ao terminar de ler a matéria da revista.

Dois trechos, particularmente, me abalaram. Em um, a jornalista descreve o procedimento do "meio aborto" (atenção, as linhas a seguir são fortes):

A redução embrionária é feita na 12ª semana de gestação. Quando os dois embriões* parecem saudáveis, a escolha é aleatória. Com a ajuda do ultrassom, o médico localiza o embrião de mais fácil acesso e injeta cloreto de potássio na região que parece pulsar. O objetivo é atingir o coração. A morte é instantânea.

9 de maio de 2011

Pra não dizer que não falei... Das mães

Neste mês de Maio, de Maria, das Noivas e das Mães, tenho um apelo a fazer...
... Mães, ajam como mães. Eduquem. Ensinem pelo menos o básico: bons modos

A Peasant Woman with Her Son (1900), Niko Pirosmanashvili

A Santa Missa no Dia das Mães é sempre muito especial. No final da celebração, o padre da minha paróquia, aqui em Belo Horizonte, chama as mães à frente, a fim de que toda a comunidade possa cantar uma canção pra elas. E, em seguida, o "Parabéns Pra Você". Elas recebem um botão de rosa vermelha, um cartão ou alguma uma outra lembrança. É engraçado. Quando elas sobem ao altar... Os bancos ficam (quase) vazios!

Houve uma diferença neste ano. Depois de lindamente falar sobre o Evangelho deste domingo, Lc 24, 13-35 (passagem que relata o encontro de Jesus Cristo ressuscitado com os dois discípulos de Emaús, que seria um povoado próximo à cidade de Jerusalém), o pároco "deu um toque" nas mães presentes. Incitou-as a não olvidarem de seu papel importantíssimo de educadoras.

Ele contou o caso de uma mãe que se queixou de que, após repreender o filho adolescente, ouviu dele: "Se encostar a mão em mim, eu te denuncio pr'o Conselho Tutelar!". Se você não mora no Brasil e não sabe, esse órgão "tem a função de tomar providências em casos de ameaças ou violação dos direitos da criança e do adolescente" - conforme o portal da PBH.

O sacerdote não defendeu que as crianças sejam beliscadas ou estapeadas, mas que, "com jeitinho", os pais têm o dever de mostrar que são eles que educam os filhos, e não o contrário. No final, mencionou o aborto. E observou que uma mãe que interrompe a gravidez pode ser comparada a alguém que ganha um prêmio acumulado na loteria e que, em vez de receber a importância, rasga o bilhete que foi sorteado. Ser mãe, afirmou, é algo que tem um valor inestimável. É um dom maravilhoso.

29 de janeiro de 2011

Ela não põe dinheiro em 1º Lugar

A mais bem-sucedida (e rica) personalidade da TV nos EUA, Oprah Winfrey,
descobriu uma meia-irmã. Patricia quis resolver tudo longe da mídia:
"Assuntos de família se resolvem em família", sentenciou.

Passou no canal de TV a cabo GNT, nessa sexta-feira, o programa The Oprah Winfrey Show, ou simplesmente Oprah, no qual a apresentadora, uma das mulheres mais respeitadas da televisão em todo o mundo e uma das mais ricas dos Estados Unidos, exibiu a sua meia-irmã, Patricia - até há pouco desconhecida.

Depois de 25 anos à frente da atração (a qual, soube pela imprensa, foi sempre sucesso de audiência na terra de Tio Sam), Oprah está se despedindo, a fim de se dedicar às produções de seu próprio canal de TV, que já está no ar.

Enfim: ela começou a tal edição do programa notificando à plateia e aos telespectadores que, nesses anos todos à frente do Oprah, chegou a reunir em seu palco famílias que estavam separadas. Parentes que, por uma razão ou outra, cresceram longe um do outro. E jamais, jamais, poderia imaginar que no mesmo local, um dia, ela mesma estaria se reunindo, diante do público, a uma parente que estava distante.

25 de setembro de 2010

Moralidade x Misericórdia

Houve um tempo em que filhos fora do casamento eram chamados de “ilegítimos”.
E não eram só eles que sofriam com o preconceito: seus descendentes, também.
No quadro, um patriarca expulsa a filha e o filho "ilegítimo" dela para fora de casa

NOTA: Escrevi esta crônica em 7 de outubro de 1999, baseando-me na história verídica que a mãe de uma colega de Faculdade me contou. Todos os nomes foram alterados em respeito à privacidade dos envolvidos.


Minha avó não foi filha legítima. João Q. de A., dono da fazenda ao lado, fez amor com minha bisavó, que naquela altura era viúva, e então nasceu minha avó. As filhas mais velhas da bisa eram morenas, moreninhas, praticamente negras. Minha avó era loirinha. Todo mundo a chamava de "milho". João Q. de A. ficou sabendo da gravidez e do parto. Mas não quis reconhecer: "Vai dar problema com a herança", e de si, deixou que a pequena levasse o primeiro nome. Joana.

26 de julho de 2010

Mães que agem como Filhas

Magali, de blusa preta, recebe a irmã, Suzana,
que acabava de desembarcar no Aeroporto de Confins, na Grande BH,
vinda da África do Sul. Dois exemplos de Grandes Mães

Fotografia de Andréa Cristina
Eu ainda não me tornei "mãe". Sigo sendo apenas filha. Ou melhor: filha, irmã, neta, sobrinha, afilhada, prima, esposa... "Mãe", não.

E mesmo sem a perspectiva de ver a vida do ponto de vista de alguém que gerou um filho no ventre ou no coração, aprendi a distinguir como age uma verdadeira mãe: o milagre do casamento, do afastamento da casa dos meus pais, deu-me a distância justa e adequada para vislumbrar a minha e as outras mães.

Inesperada e rapidamente descobri que aquela mulher com quem eu tanto me desentendia, cujas ordens eu não compreendia (sobretudo na adolescência), sempre agiu como uma mãe deve agir.

Este texto não pretende ser um "elogio rasgado" - e suspeito - daquela que me trouxe ao mundo, que me deu à luz, como se diz. Quero apenas - e bem atrevidamente - chamar a atenção para o fato de que algumas mulheres não agem como mães. O que é o absurdo dos absurdos, porque uma "má mãe" vai ter uma influência terrível no caráter e no desenvolvimento do filho.

No que me consta, nem a Psicologia nem a Igreja divergem sobre a importância da figura materna na vida de alguém. Daí a urgência de nos educarmos para sermos "boas mães". Não sou expert no assunto - se não na prática, bem menos na teoria -, mas observando algumas mães, descobri que elas agem... Como filhas!