4 de setembro de 2026

Sobre a ânsia por liderar

Tela: Lava-pés - 1480 -
Autor: Master of the Housebook

Dia desses assisti ao vídeo institucional de uma escola particular que recebe alunos do Maternal ao Ensino Médio. A escola é muito bonita, ampla... E embora eu sentisse falta de ver uma biblioteca no vídeo, o que mais me chamou a atenção foi o uso abusivo da palavra líder. De modo incisivo, a voz do narrador dizia que se tratava de uma escola "que vai tornar o seu filho um líder". O primeiro pensamento que me veio à mente é o que o mundo fará com outros tantos líderes recém-formados...

O saudoso Padre Léo contou, numa de suas pregações, que apenas uma única vez foi convidado para um encontro de "lideranças" do movimento da Renovação Carismática Católica. Uma única vez, porque, quando lhe deram o microfone, esse padre, cuja marca era a autenticidade, pontuou: "Está tudo errado nesse encontro. A começar pelo nome. 'Lideranças'? Desde quando a palavra 'líder' aparece na Bíblia? A gente não deveria ser líder de nada não. Somos todos servos inúteis, que não fazem mais do que a sua obrigação!".

Acho que por isso a mensagem de Jesus segue revolucionária. Ela vai na contramão do que muitos valorizam no mundo. E isso há mais de dois mil anos. No Evangelho Segundo São Marcos, em dois capítulos seguidos, nono e décimo, Jesus ensina: "Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos". Ele disse isso depois que descobriu que os doze discípulos discutiam entre si para saber qual deles seria "o maior".

Hoje, eu navegava na rede social Instagram, quando me deparei com uma imagem, cujo título era: Jesus Está Perdendo Espaço Para Davi?. Abaixo, vinha a explicação: "Em parte das igrejas evangélicas, ganha força um ideal de rei que conquista, governa e vence. Enquanto isso, o Jesus que serve, renuncia e morre parece cada vez menos útil ao discurso de poder". Como exemplifiquei linhas acima, esse fenômeno não se restringe às Igrejas Evangélicas, mas está na Igreja Católica também.

Uma saída pra essa distorção do que deveria ser a nossa meta é um contato frequente e aberto com o que nos ensina a Palavra. Não é preciso ser um especialista em exegese ou hermenêutica, pra entender que Jesus espera de nós mansidão e humildade. Também nos mesmos capítulos nono e décimo, Ele dá o exemplo dos pequeninos, ou seja, daqueles que até mesmo os discípulos desprezam, pois não os deixam se aproximarem de Jesus: "O Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham", afirma.

Pequeninos são os despojados de tudo, especialmente da consideração, do respeito. Eles não têm a quem recorrer. Contam com o abraço, o zelo, a graça do Pai. Jesus pede de nós uma renúncia que nos iguale a eles. O Mestre é radical. E nosso grande apego é com o modus operandi do mundo. Por desconhecimento da mensagem de Jesus ou por teimosia mesmo, insistimos em almejar os primeiros lugares, submetendo-nos à busca por liderança e vitória imposta pela nossa sociedade.

A lógica de Deus é invertida. Quem abre mão é que se faz rico. Quem renuncia por causa do Evangelho, como Jesus mesmo prometeu, "receberá cem vezes mais". No capítulo dez de São Marcos, Ele institui: "Muitos dos primeiros serão os últimos e dos últimos serão os primeiros". Isso não é gratuito. É preciso levarmos a sério.

Licença Creative Commons
Atribuição: Ana Paula Camargo (acatolica.blogspot.com).
Este trabalho está protegido
por uma LICENÇA CREATIVE COMMONS.
Clique no Link para conhecê-la.