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19 de abril de 2023

Nunca te vi, sempre te amei

Tela: Niewierny Tomasz (Tomé em dúvida) - 1911 - Jacek Malczewski

Tempos atrás, assisti na TV a um filme interessante. Tratava-se de uma mulher e um homem que se corresponderam por cartas durante duas décadas sem nunca se encontrarem. Tudo começou, porque ela era uma escritora americana em busca de obras raras, que existiam numa livraria na Inglaterra, onde o homem era gerente. A troca de cartas entre a cliente e o vendedor tornou-se, com os anos, uma conversa entre dois amigos que passaram a nutrir um sentimento especial um pelo outro.

Deus também Se corresponde conosco. Seja através de um mensageiro (um anjo), seja pessoalmente mesmo. A diferença é que, em alguns momentos na Bíblia, essa relação foi pontuada pela incerteza e a insegurança. Há três exemplos notórios: o do juiz Gedeão, o do sacerdote Zacarias e o do apóstolo Tomé.

15 de abril de 2023

O sentido de pertencimento a um povo

Tela: Cristo en la cruz (1675),
Bartolomé Esteban Murillo

A cena que mais me comove no filme "Os Dez Mandamentos", do ano de 1956, é quando, através de um pedaço de pano, Moisés se dá conta de que não é um príncipe egípcio, e sim um escravo hebreu. Aperta o meu coração ver a perplexidade dada à personagem pelo ator Charlton Heston diante dessa descoberta, trazida por aquele pano de confecção hebreia. Pano que, segundo uma testemunha, o envolveu quando chegou ainda bebê das águas às mãos da filha do faraó.

Embora essa cena não conste na Bíblia - já que a Sagrada Escritura não conta como Moisés descobriu a sua verdadeira identidade -, ela ilustra um momento crucial: a aquisição de um senso comunitário. Moisés pertencia àquele povo escravizado no Egito. E assumiu a sua nova identidade a ponto de, anos mais tarde, confrontar o faraó em prol da libertação do seu povo.

Muito tempo depois, outra judia (como passaram a ser chamados os hebreus) demonstrou o mesmíssimo senso. Era a filósofa alemã Edith Stein. 

14 de abril de 2023

E foram com grande pressa a Belém...

Tela: Annunciation to the shepherds (1600-25),
Abraham Bloemaert

Francisco teria dito que seu filme favorito sobre Jesus é "O evangelho segundo São Mateus", do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Entendo o Papa. Tenho o DVD e assisti a esse longa do ano de 1964 inúmeras vezes. Mas, o meu preferido é de alguns anos antes (1961) e chama-se "Rei dos reis", dirigido pelo americano Nicholas Ray. Esse filme tem somente um senão: enfatizar a visita que os três reis magos fizeram ao bebê Jesus, em vez da visita dos pastores. E por que isso me incomoda?

Pastor é uma profissão distante da minha realidade. Nunca chamou a minha atenção - menina urbana que eu era. Até que, aos 13 anos de idade, o professor Carlos Herbert me apresentou o livro "O Alquimista", de Paulo Coelho. Logo na primeira página, conheci Santiago... Um pastor! Então, o autor do romance descreve a realidade fascinante desse ofício exercido a céu aberto, em que um dia nunca é igual ao outro, porque o pastor está sempre em movimento, levando o rebanho a diferentes lugares. 

Houve, ainda, uma segunda vez em que eles me chamaram a atenção.

19 de fevereiro de 2014

(Também) fico com o cinema americano

Nosso "mal" é acreditar que a vida tem que copiar a arte.
Em muitas vidas - como na minha - esse não é o caso...

Imagem: Pôster do filme Assim Caminha a Humanidade, 1956
Reprodução-Internet

Se me perguntarem "Em quê a vida mais te marcou?"; eu direi: "Lembro que fiquei esperando...". A vida é uma sucessão de expectativas por coisas sensacionais. E quase todas não se realizam.

Há quem queira me fazer crer, como os depoimentos à revista Marie Claire (seção "Eu, Leitora"), que a própria história é incrível, marcada por reviravoltas e surpresas emocionantes em que tudo se encadeia e se colide, como num estouro de espumante, pra acabar acontecendo tudo o que se queria. Não conheço ninguém, perto de mim, que tenha experimentado realidade tão... Borbulhante.

Na minha vida, e na de muitos ao meu redor, eu me embrenho em ocorrências nada... Fervilhantes. Olho pra direita, olho pra esquerda, olho pra cima e também para baixo e só há feijão, arroz, angu, couve picadinha, costela de porco frita. Talvez, uma farinha. Sempre, pimenta. Nada mais. Nada das trombadas do destino como se costuma ver nos filmes americanos.

Anteontem mesmo, porque abriram o Telecine pra quem não assina, pude ver um filme chamado A Prova, no qual a personagem de Gwyneth Paltrow tromba com a de Jake Gyllenhaal. Resultado: apaixonam-se. O canal TBS reprisa o seriado Sex and the City e a personagem Charlotte se estatela no chão, no meio do asfalto, e quase leva a trombada de um táxi, do qual salta um passageiro moreno, alto, etc., etc., que fica todo condoído com a moça linda no chão. Sim, adivinhou: eles se casam depois.

Pôster do filme A Um Passo da Eternidade, 1953 - Reprodução-Internet

E o que dizer da cena da novela Amor à Vida, recém-terminada na Rede Globo, na qual a personagem Gina, tímida e de baixa altoestima, que só vivia da casa pro botequim e do botequim pra casa (êpa: ela trabalhava no botequim do pai), justo numa das parcas vezes em que sai desses 2 cenários tromba com um carro em marcha a ré, conduzido pelo charmoso José Wilker, "Doutor Herbert". Começam a namorar.

Minha pergunta: por que só no cinema e na TV (ah: e na seção "Eu, Leitora") há esses esbarrões que mudam a vida de alguém? (Só dei exemplos de "encontros amorosos", mas não me refiro somente a eles.) Minha vida inteira eu espero por este instante mágico, no qual alguém topará comigo - PUM! - e mudará o meu destino. Não acontece nada! Nos escorregões que dou, nem mesmo um garçom por perto pra me levantar!... Pensa que desisto? Que nada.

Neste arroz com feijão, angu, couve, etc., etc., eu... Espero. Espero a guinada. A topada de Drummond:

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra

Não há pedras! Há pedregulhos triviais e irritantes, redondos ou quadrados, os quais chuto, dos quais me desvencilho e que tenho que tolerar. E fazê-lo com cuidado, pra não pisar e escorregar (lembre: não há garçom por perto). Neste chão familiar, vou caminhando e seguindo, esperando e recitando os versos de outro brasileiro ladino, Paulo Leminski:

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Boa realidade - borbulhante ou não - pra você também.

Pôster do filme Cantando na Chuva, 1952 - Reprodução-Internet


4 de novembro de 2013

Sobre Sobral - O Homem que Não Tinha Preço


Um Post para minha prima Larissa Cristina, que vive em Sorocaba,
contando-lhe por que deve assistir a esse filme imperdível

(Imagem: cartaz promocional de Sobral - O Homem que Não Tinha Preço)


Belo Horizonte, 3 de novembro de 2013.

Prima Querida,

Saudades de você!!

Hoje, depois de muito tempo, acho que desde antes de eu ficar grávida do Jaime Augusto, fui ao cinema - a uma sala de cinema - de novo!... E para assistir a um documentário - gênero que adoro. Quando soube (confesso que não me recordo de onde nem quando) que um filme sobre o grande jurista Sobral Pinto, de quem eu tinha ouvido falar remotamente, entraria em cartaz no dia 1º de novembro, não resisti: Farney e eu literalmente CORREMOS para ver!

Foi apenas 1h30 de duração. Pareceu mais. Não porque fosse maçante, mas pela quantidade de informações, de depoimentos, da riqueza da vida da personagem retratada.

Sabe, Larissa, a história do nosso país é riquíssima.

A gente chega a pensar, devido à insistente e massiva difusão das caras e bocas de personalidades de outros países (Einsteins; Thomas Jeffersons; Marie Curies; etc.), que grandes cérebros e grandes seres humanos faltam na história do Brasil. Aqui, parece que só há gente "interessante" nos gramados ou com o microfone em riste, apresentando programa de auditório. Vai ver que, por isso, o sonho de 10 entre 10 garotos brasileiros seja ser "jogador de futebol" e de 10 entre 10 brasileirinhas, "modelo e atriz"...

... Eu me pergunto:

- Por que nas escolas, nos Ensinos Fundamental e Médio, quando aprendemos História ou Estudos Sociais, nossos professores não nos apresentam incisivamente personalidades como Sobral Pinto?

- Por que programas de relativa audiência como o Fantástico, da Rede Globo de Televisão, não fazem uma matéria ostensiva sobre um documentário como Sobral, que é de suma importância?

- Por que a equipe jornalística do Fantástico prefere entrevistar o ator protagonista de blockbusters como Thor, em vez de contribuir para a bilheteria do cinema nacional e a formação da audiência brasileira, indicando longas-metragem como o que acabei de assistir nesse domingo?

Se crianças e jovens conhecessem Sobral Pinto, o trabalho dele, como esse jurista foi importante na história recente do Brasil, como ele SALVOU tantas vidas, será que alguns deles não "desistiriam" da carreira no futebol e de serem as novas Gisele Bündchens, abraçando o sonho de defender os excluídos?

O negócio, Lari, é que quando a gente pega o nosso canudo (ou os nossos canudos, como no seu caso), só queremos saber de começar a montar "o nosso patrimônio", "a nossa carreira", "a nossa família". E como canta Rita Lee na canção Barata Tonta: O resto que se exploda/ Feito bomba H. Sobral Pinto, a exemplo do poetinha Vinícius de Moraes, era o contrário de tudo isto que venceu: a ostentação, o acúmulo de dinheiro e o individualismo - como afirmou tão bem Chico Buarque de Holanda.

O documentário Sobral - O Homem que Não Tinha Preço prova que uma andorinha sozinha faz verão SIM. Quando ela tem fé (ele era católico apostólico romano convicto) e está em paz com a própria consciência, porque compreendeu a própria vocação e a leva a sério. Quando se faz este tipo de escolha, ter fé e viver sob o comando da consciência, não só nós mesmos, como quem está ao nosso redor se beneficia. No caso de Sobral, todo o Brasil se beneficiou.

Um beijo e... Fica a dica: se puder, assista ao filme.

P.S. TE AMO. Saudades do seu sorriso LINDO!...




P.S. Em entrevista, neta de Sobral Pinto e diretora de filme fala sobre avô - OABRJ Digital.



23 de setembro de 2013

Desprezo e abuso sexual

Um trauma "bobo" da minha infância me marcou.
Imagine com o quê têm que lidar os adultos que sofreram
abusos sexuais de pessoas da sua confiança, quando eram crianças

(Fotografia de Jiri Hodan)

Como de costume nos reunimos na metade da mesa da sala de jantar para almoçar: mamãe, Andréa Cristina e eu. Éramos adolescentes e havíamos acabado de chegar do colégio. Conversa vem, conversa vai, do nada, do nada mesmo, veio a minha lembrança um fato longínquo, de quando eu tinha cerca de 3 anos de idade. Após contá-lo, tintim por tintim, mamãe o confirmou - tamanha a vividez da minha recordação.

Meus pais e alguns conhecidos tinham ido acampar para pescar no interior das Minas Gerais (estado onde nasci e vivo aqui no Brasil).

À noite, nós, crianças, deveríamos ficar dormindo em uma das barracas que montaram sobre a grama, no meio do mato. A certa altura, mamãe, que estava me fazendo dormir dando "tapinhas" nas minhas costas e cantando uma canção de ninar, teve que sair da barraca e pediu a uma conhecida, que também fazia a filha dormir, pra continuar a me embalar: "Pode deixar, Magali, eu canto pra Ana Paula...", a tal mulher falou.

Pois bem.

Eu me lembro vividamente, caro internauta d'A Católica, como se tivesse sido ontem, que essa conhecida deu "tapinhas" em mim até a minha mãe atravessar a barraca. Assim que a viu sair, a tal conhecida simplesmente me ignorou. Parou de me embalar, de tocar carinhosamente nas minhas costas e de cantar para mim, voltando-se apenas para a própria filha, que era da minha idade. Até hoje me recordo do choque que senti: ela tinha acabado de garantir a minha mãe que "me daria carinho", mas me deixou só.

Foi a 1ª vez na minha vida em que experimentei o desprezo. E essa lembrança voltou do nada, de repente, em plena adolescência, no meio de um almoço casual com minha mãe e minha única irmã, depois de uma manhã de aulas no colégio.

Essa recordação dolorosa, que me causou perplexidade ante o comportamento de uma mulher que já era mãe (e uma mãe católica apostólica romana) não é NADA, porém, perto do que vi recentemente no Post de um Blog que visito com frequência: o Hypeness.

O blogueiro Vicente Carvalho escreveu a respeito do documentário os Monstros da minha Casa (los Monstruos de mi Casa). Segundo ele, trata-se de um vídeo que "mostra a realidade de crianças vítimas de abuso físico e emocional, na Espanha". A protagonista é a super-mãe Carmen Artero, que "acolhe essas crianças que estão com o emocional absolutamente abalado e com muito medo de voltar para seu próprio lar". O intento dela é abrir uma fundação para que todos tenham direito a uma infância feliz.

Em algumas passagens do documentário, que dura não mais do que 60 minutos, aparecem desenhos de meninos e meninas entre os 5 e os 15 anos de idade, que foram interpretados por especialistas. Neles, eles expressam a violência sexual e outras negligências que ocorriam dentro de suas casas. Conforme outro blogueiro, Lucas Mombaque, as ilustrações estiveram em exposição na Espanha em outubro de 2010.

Neste Post do Blog A Católica, você confere 5 desses desenhos, com as interpretações que recolhi dos Posts de Vicente Carvalho e de Lucas Mombaque.

21 de janeiro de 2013

Pragmatismo, ostentação e... Vinícius de Moraes

O saudoso artista, como observou Chico Buarque,
representa um mundo bastante diferente
da sociedade frívola na qual vivemos

(Imagem: Como funciona Vinícius de Moraes)

Assisti pela quarta vez ao excelente documentário Vinícius - Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores? (2006), de Miguel Faria Jr. Quem ama Música Popular Brasileira (MPB), como eu, precisa ver. Porque Vinícius de Moraes - sobre quem já escrevi um Post aqui no Blog A Católica: A bênção, Vinícius de Moraes! - está entranhado na história da música no Brasil: foi um dos criadores da Bossa Nova e dos Afro-Sambas. Sem contar as inesquecíveis composições que fez com Toquinho.

Nem sempre a uma bela obra - além de musicista e letrista de primeira, Vinícius de Moraes era um grande poeta -, bem, nem sempre a uma bela obra está atada uma personalidade marcante. No caso de Vinícius, estava. Por trás de criações ímpares do cancioneiro nacional como Tarde em Itapoã, Garota de Ipanema e Canto de Ossanha, havia um homem generoso, espirituoso, amoroso, atencioso... Apaixonado.

No final do filme, quando os entrevistados - entre eles: Tônia Carreiro, Gilberto Gil e Ferreira Gullar - devem dizer como imaginavam que Vinícius de Moraes estaria hoje, caso fosse vivo, Chico Buarque disse algo que me impressionou. Suas palavras foram:

Não sei onde estaria Vinícius de Moraes hoje em dia, porque ele é o contrário de muita coisa que hoje é vitoriosa, quer dizer, a ostentação... Ele tinha toda esta coisa muita generosa, às vezes ingênua, às vezes porra-louca... Uma coisa que não existe mais hoje: nem a porra-louquice, nem a generosidade, muito menos a ingenuidade. Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática e tal. Tudo o que Vinícius não era.

Então, Vinícius faz muita falta hoje. Talvez ele não pudesse mesmo estar vivo sendo "Vinícius" hoje. Não imagino em que lugar ele estaria dentro deste país em que a gente vive. Deste país e deste mundo.

28 de junho de 2012

Ah, as mãos...

Quem de nós não adoraria ter uma Mammy,
como Scarlett O'Hara no filme ... E o Vento Levou?
Alguém para nos servir, dando-nos tudo de bandeja?

Neste Post d'A Católica, a inutilidade das nossas mãos

(Imagem: Studio portrait photo of Vivien Leigh taken for promotional use - 1939 - MGM)

Quando assisti ao clássico ... E o Vento Levou pela primeira vez, logo no comecinho do filme, algo me chamou a atenção: Scarlett O'Hara, a personagem principal, se aprontava para ir a um churrasco e recebia tudo nas mãos: desde a bandeja prateada com o café da manhã até o espartilho que a escrava, Mammy, apertava-lhe na cinturinha de pilão (como dizemos aqui no Brasil).

Muitos anos mais tarde, quando vi Maria Antonieta, fiquei impressionada com a sucessão de cenas nas quais a aristocrata austríaca, que se casou com o herdeiro do trono francês, Luís XVI, não precisava fazer absolutamente nada: havia quase uma dezena de criadas para lhe tirarem as roupas e lhe colocarem a camisola. As mãos da princesa serviam praticamente apenas para dispor penduricalhos sobre as perucas que usava, jogar cartas e levar champanhe e guloseimas coloridas à boca.

Pouco depois disso, comecei a assistir ao A Dama de Ferro. Também logo no início desse filme, a personagem Margaret Thatcher, interpretada por Meryl Streep, tem dificuldades de se vestir e conta com o auxílio (se não me engano) da filha para pôr vestidos, casacos e os sapatos. Estava idosa e doente. Contemplar as dificuldades da ex-primeira-ministra do Reino Unido da Grã-Bretanha me fez recordar as palavras da minha mãe: "Nada como fazer as coisas sem precisar da ajuda de alguém...".

Ah, as mãos.

Photo taken in 1925 or earlier, by Doris Ulmann

11 de agosto de 2011

As escolhas (estranhas) de Deus

Em Amadeus, Salieri não entendia por que Mozart - vulgar e infantil -
foi eleito canal da beleza e harmonia de Deus.
Neste Post d'A Católica, conheça essa e outras escolhas de Nosso Senhor.

(Imagem: Reprodução-Internet)

Vira e mexe a gente assiste à distância (ou mais perto do que gostaríamos) ao sucesso do outro. Não precisa ser necessariamente material, como um prêmio da loteria ou um carro novo. Pode ser um casamento. Uma aprovação no vestibular. Uma carta de direção. Uma gravidez. Ficamos entre o contentamento por sua conquista e o despeito. A incompreensão: "Por que tudo parece dar tão certo para ele, e não para mim?".

Quem de nós não passou - ou ainda passa - por isso?

Dói, especialmente, quando o outro, no nosso ponto de vista, "não merece" o sucesso ou a bênção que está recebendo. Por exemplo: uma garota que não se dedicou tanto quanto poderia aos estudos, que lia de vez em quando apenas, mas conquistou uma vaga num concurso público, enquanto você, que estudou dia e noite, perdeu festas e horas de sono, não. Vem a raiva: "Eu é quem deveria estar lá, não ela!".

E quanto às mulheres que engravidam de um filho atrás do outro, sem a mínima condição financeira nem psicológica de criá-los, deixando-os viver na rua e até mesmo abandonando recém-nascidos em caçambas de lixo? (Como vemos nos telejornais aqui no Brasil.) Enquanto outras, prósperas tanto material quanto emocionalmente, têm extrema dificuldade de engravidar, fazem tratamentos caros em clínicas de fertilização e às vezes... Nada. "Por que, meu Deus?", devem se perguntar.

É sobre isto que trata Amadeus (Estados Unidos, 1984): inveja e incompreensão. No começo desse maravilhoso longa-metragem, dirigido por Milos Forman, um menino - o italiano Antonio Salieri (1750-1825) - dirige uma oração fervorosa aos Céus, durante a Santa Missa:

Meu Deus, faça de mim um compositor famoso. Permita-me celebrar a Sua glória através da música... E ser celebrado. Faça-me famoso em todo o mundo. Faça-me imortal. Quando eu morrer, faça com que as pessoas me apreciem pelo que eu compus. Em retorno, eu Lhe darei minha decência, minha diligência, minha humildade em cada momento da minha vida. Amém.

Internauta, eu ainda não lhe contei: logo antes dessa cena, Antonio Salieri aparece bastante envelhecido, em um hospício, confessando-se com um sacerdote - confesso a você que essa é a minha passagem favorita de todo o filme. Justo aqui, a atuação de F. Murray Abraham como Salieri, com seu olhar e lábios encrespados que caracterizam um invejoso típico, já se mostrava digna do Oscar (o qual acabou ganhando).

Na verdade, o longa de Milos Forman acontece em torno desse momento: o roteiro se desdobra a partir do ponto de vista do velho Salieri ao longo da confissão que faz com o jovem padre.

26 de junho de 2011

Love Story e o Reino de Deus

Enquanto não despertarmos do nosso sono, o Reino dos Céus
continuará como um filme bonito, numa tela de cinema.
Distante da realidade e de todos nós.

(Imagem: Reprodução-Internet)

Não tem nada demais. Alguns cenários, dois personagens principais e uns cinco coadjuvantes, que falam pouco mais do que algumas frases. Mas há o roteiro brilhante, a trilha sonora maravilhosa de Francis Lai - ganhadora do Oscar - e as atuações realistas e contagiantes dos atores Ali MacGraw e Ryan O'Neal. Com pouca firula e bastante intensidade, Love Story (Estados Unidos, 1970), dirigido por Arthur Hiller, cativa desde os corações mais duros até os amantes dos efeitos especiais, que "torcem o nariz" para uma história simples, contada na tela sem muitos recursos de tecnologia.

Como bem observou meu marido Farney, Love Story é um drama.

Mamãe Gali o assistiu no cinema. Disse-me que todo mundo (todo mundo mesmo) saiu da sala escura de projeção "fungando o nariz", ou seja, emocionadíssimo. Realmente, o final do enredo, depois que você acompanha o desenrolar do destino das personagens Jennifer Cavalleri e Oliver Barrett IV, é de "cortar o coração". Poucas vezes na vida - e olhe que já vi muito filme em mais de 30 anos - assisti a uma história de amor tão bonita, sincera, profunda e bem-humorada. Bem-humorada também. Eis o diálogo que Jenny e Oliver travam, logo que se conhecem:

Jennifer Cavalleri: Você parece estúpido e rico.
Oliver Barrett IV: E se eu disser que sou inteligente e pobre?
Jennifer Cavalleri: Eu sou inteligente e pobre.
Oliver Barrett IV: E o que faz você tão inteligente?
Jennifer Cavalleri: Eu não sairia para tomar um café com você. Eis o que me torna inteligente.
Oliver Barrett IV: E se eu disser que nunca chamaria você para tomar um café comigo?
Jennifer Cavalleri: Bem, é isso que o torna estúpido.

Claro que, na cena seguinte... Eles aparecem na cafeteria!

1 de abril de 2011

Crônica sobre a cegueira

Como Paulo um dia, também trago escamas nos olhos
que me atrapalham a ver a vida conforme a visão de Deus

Fotografia de jane doe

Fotografia de David Wagner

14 de março de 2011

O tempo da Quaresma e o filme 127 Horas

Aron Ralston renunciou à mão direita, à parte do braço
e também a um jeito (egoísta) de viver.
Este tempo litúrgico da Igreja nos propõe a fazer (quase) o mesmo

Fotografia de Vera Kratochvil

Ele era "O Tal". Gostava de subir e descer de montanhas, nadar em lagos inóspitos, como um pássaro independente e sem ninho. No sábado, pegou carro, bicicleta, mochila, lanche e muitas cordas. Um fim de semana pleno de adrenalina e... Sozinho. Ops. Algo saiu errado. Não estava no script, não era previsto. Pula daqui, salta dali... Ele cai. Junto a uma pedra que rola e prende antebraço e mão direitos, esmagados contra um paredão frio, cor de ferrugem, no fundo de uma grande fenda rochosa.

Esse é o início do filme 127 horas (2010), do diretor inglês Danny Boyle.

O título remete ao intervalo em que o jovem Aron Ralston, interpretado pelo ator norte-americano James Franco (anfitrião da cerimônia do Oscar de 2011), ficou preso naquele local: entre os cânions do deserto do estado de Utah, nos Estados Unidos. Se ainda não sabe, internauta d'A Católica, eis o mais impressionante: Aron Ralston não é personagem de ficção. Existe em carne e osso. O incidente de que trata o longa ocorreu no ano de 2003.

Imagem: Reprodução-Internet

27 de fevereiro de 2011

George VI: como um rei combate um inimigo

Antes de liderar os ingleses contra o alemão Hitler, George VI
teve que debelar a própria gagueira - um outro adversário (muito) difícil

Pode haver coisa mais gostosa na vida do que vencer a si mesmo? Não. Não mesmo. Nem a vitória em uma guerra contra o mais invejoso dos inimigos pode substituir a sensação de haver batido um defeito, uma fraqueza, uma limitação pessoal. Ontem, véspera de mais uma festa do Oscar, eu assisti embevecida a King's Speech (em português: "O Discurso do Rei"). Filme que conta a história do pai da rainha Elizabeth II (mãe de Charles, avó de William): Rei George VI. Que era gago. E superou a gagueira.

Eu era gaga. Uma "lady" gaga.

Lembro-me na 6ª série do 1º grau (hoje, do Ensino Fundamental), aos 11 anos de idade, lendo o capítulo 3 ou 8 do livro Dito, o Negrinho da Flauta, de Pedro Bloch. A pedido da professora e diante dos meus colegas. Constrangidíssima, gaguejando cada linha de cada parágrafo. E olhe que a "leitura" valia pontos para a disciplina de Português. Ninguém zombou de mim. Ou eu estava tão arrasada comigo mesma, que fiquei surda aos risos. Não sei ao certo. Só lembro a sensação de fracasso.

Espere. Minha intenção neste Post não é falar sobre mim. Só relatei esse trecho "horrível" da minha biografia, porque pude imaginar bem as agruras por que Albert (como George VI se chamava antes de se investir da dignidade de rei) passou.

18 de fevereiro de 2011

5 pedras para vencer um problema

Vamos conhecer essas pedras com o professor Prado Flores,
o pastor David e o filme O Óleo de Lorenzo, aqui n'A Católica!

TV Canção Nova. Não conhece? Pois convido-o a acompanhar a programação dessa emissora que nos ensina tanto! Direto ao ponto: dia 5 de fevereiro, assistindo ao vivo à transmissão da festa de 20 anos da Comunidade Nova Aliança, em Anápolis, no estado de Goiás (BRASIL), para minha doce surpresa, o professor José Prado Flores aparece para fazer mais uma de suas pregações inesquecíveis - já falei dele no Post A sua vida é responsabilidade SUA.

O nome dela? "Cinco pedras para vencer um problema". A partir da história do pastor David arrostando o gigante Golias, o professor depreendeu cinco abordagens eficazes para lidarmos com as questões da nossa vida que, literalmente, tiram o nosso sono.

Fui assistindo, tomando nota das pedras (e rindo muito, porque uma das marcas de Prado Flores é o humor). Fiquei todos esses dias do mês que decorreram... Pensando. Até que a TV a cabo reprisou a maravilhosa e verídica história de Lorenzo Michael Murphy Odone - contada no também maravilhoso filme O Óleo de Lorenzo (1992). Eureka! Não é que os pais do pequeno Lorenzo, Augusto e Michaela, puseram em prática as cinco pedras de Prado Flores?

O resultado deste mix: palestra + pastor David + Augusto e Michaela Odone = você lê aqui, n'A Católica!

9 de fevereiro de 2011

O filme "Cisne Negro": a luta pela perfeição

Nina sempre foi um Cisne Branco, mas exigiram dela que buscasse
dentro de si uma outra faceta, uma outra coisa...

... Depois de muito suor e uma batalha dura consigo mesma,
ela conseguiu: tornou-se um Cisne Negro e declarou no final: "Foi perfeito."

(Fotografia de Nevit Dilmen)

Imagem: Reprodução-Internet

5 de fevereiro de 2011

MAIS + Marisa Monte



Consegui unir trabalho e vocação.
Isso dá sentido à vida,
sendo você músico, médico
ou motorista de caminhão.

(Marisa Monte no DVD
"Infinito ao Meu Redor")

Olhe ela aí de novo no Blog A Católica! Se você é um internauta de outro país, deve saber disto: a Música Popular Brasileira (MPB) é das mais admiradas do mundo e uma das coisas de que mais me orgulho em ser do Brasil. Já ouviu algum ritmo nosso? Bossa Nova? Samba?

Pois uma das mais dignas e melhores intérpretes do nosso cancioneiro nacional é a carioca Marisa Monte, sobre quem já escrevi aqui - para conferir, basta dar uma olhadinha em Quero ser Marisa Monte!! (2 meses de Blog!).

Neste Post específico d'A Católica, divido com você, meu internauta, o que achei do DVD mais recente da artista, Infinito ao Meu Redor - um documentário sobre a sua profissão e a turnê de 18 meses que promoveu os CDs Infinito Particular e Universo ao Meu Redor que ela lançou, ao mesmo tempo, no início de 2006. Boa Leitura!

10 de janeiro de 2011

A sua vida é responsabilidade SUA

Correr atrás da sua felicidade garante o seu Passaporte para o Céu.
Não lutar por ela tem sérias consequências. E não adianta culpar ninguém.

Uma vez, acompanhando a imperdível programação da TV Canção Nova, assisti a uma inesquecível pregação de José Prado Flores. Com dezenas de livros publicados, incluindo pela editora Canção Nova, ele é um professor que há mais de trinta anos dedica-se à pregação da Palavra de Deus no México e em vários outros países.

Pois bem: de microfone em punho e falando um inteligível "portunhol" (mistura de português com castelhano), Prado Flores contou uma historinha interessante do que acontece quando morremos.

Segundo ele, quando chegamos ao Céu, um ajudante de Deus chega até nós com uma pesquisa. Quanto mais SIM respondemos, mais pontos marcamos. E é preciso somar cerca de 3.000 (isto mesmo: três mil) para garantir a nossa estadia no Paraíso. Assim, o ajudante começava: "Fulano, você foi batizado?". Diante da resposta afirmativa, então dizia: "Aha! Que bom. Um ponto". E prosseguia:

- Você ia à Santa Missa todos os domingos?
- Sim. Nunca faltei a uma missa sequer.
- Aha! Três pontos.
- Só isto: "três"?...
- Sim. Só. Você assistia às missas com atenção e devoção?
- Sim.
- Ãhã... Três pontos e meio.
- Você pagava o dízimo direitinho?
- Sim, claro.
- Muito bem. Dois pontos.
- Você se casou?
- Sim.
- Foi fiel a sua esposa?
- Sim.
- Ótimo. Quatro pontos.

E ele continuava a pesquisa, perguntando se o candidato à Bem-Aventurança Eterna dava esmolas, se teve filhos, se foi um bom pai, se cuidou dos próprios pais com carinho na velhice deles, se estudava a Bíblia, se dava bons conselhos aos outros, se... Valendo, no máximo, cinco pontinhos para cada SIM. Até que chegou às duas questões finais, que carimbariam o Passaporte para o Paraíso com louvor.

- Atenção. As próximas perguntas valem 1.000 pontos cada uma. Responda com honestidade. Preparado?
- Sim, preparado. Não vejo a hora de ir para o Céu!
- Pois bem. Você foi FELIZ?
- Sim... Acho que sim. Sim, eu fui.
- OK. Você ganhou 1.000 pontos. Agora, responda: você fez alguém feliz?
- Não entendi.
- Vou explicar: quando você chegava em casa, as pessoas sorriam quando o viam? Sua esposa ficava satisfeita, seus filhos vinham correndo para lhe abraçar? Onde você aparecia, as pessoas se alegravam?
- Sim... Acho que sim...
- Parabéns! Você somou mais 1.000 pontos!! BEM-VINDO AO CÉU!

A historinha, que Prado Flores contou com bastante humor, é ilustrativa e eu a transcrevi aqui n'A Católica de memória. Faz pensar, não?

3 de janeiro de 2011

il dolce far niente: ficar à toa é um barato!

Depois de décadas, finalmente aprendi o que a expressão
em italiano quer dizer. E ADOREI o seu significado!

Uma das minhas "dúvidas existênciais" foi resolvida na semana passada, enquanto assistia ao filme Comer Rezar Amar (EUA, 2010). Ainda na primeira parte do longa-metragem, italianos tentavam esclarecer à norte-americana Liz Gilbert, workaholic (pessoa extremamente dedicada ao trabalho), no que consistia il dolce far niente. Na hora em que disseram isso, minha cabeça deu um estalo: TLIM.

Por quê? Porque eu sempre quis muito saber o que essa expressão significava. Por quê? Porque desde pequenininha, na minha casa, sempre se ouviu muita música (vide o meu perfil aí ao lado: sou "louca por Música Popular Brasileira"). E Rita Lee, aclamada como a rainha do rock brasileiro ou a titia do rock, era presença onipresente com seus hits que embalaram os anos 1980 aqui no Brasil. E daí?

Bem, naquele que considero - muito provavelmente - o meu CD favorito, dentre todos os que ela lançou, o Saúde, há uma canção chamada Banho de Espuma. Logo no comecinho dela, a artista canta palavras ininteligíveis para a criança que eu era, mas que, ainda assim, eu adorava repetir:

El cuerpo caliente
Um dolce far niente
Sem culpa nenhuma

Como a expressão "El cuerpo caliente" ou "o corpo quente" é evidentemente espanhola, eu achava que "dolce far niente" também fosse, embora seu significado me parecesse mais obscuro. Isto sempre me intrigou: "Ora bolas, o que vem a ser dolce far niente?". Porém, nunca me dei ao trabalho de fazer a uma pesquisa. E os anos foram passando. E eu gostando da música sem entender direito aquele verso...

10 de outubro de 2010

Amando Jesus INTENSAMENTE

Em Meditando com Pecadores e Pecadoras do Evangelho, o autor nos incentiva
a "manifestar amor [a Jesus] do jeito que sabemos fazê-lo, sem preconceitos".
É justamente isso que o pequeno órfão faz no tocante Marcelino Pão e Vinho

Comecei ontem a rever (pela terceira vez) o excelente, maravilhoso, incrível fime Marcelino Pão e Vinho (1955). Coloquei o DVD para que meu priminho inteligentíssimo Gabriel Augusto - que vive em São Paulo - pudesse conhecer sua história. Apesar de tão novinho, recém-completados 7 anos, meu temor de que achasse o filme chato (já que é em preto-e-branco) não se atestou.

Gabriel ficou paradinho no sofá, diante da TV, acompanhando com interesse as estripulias de Marcelino. Aprendeu até uma palavra nova: traquinas. Marcelino é traquinas.

Chorei quando assisti a esse filme pela primeira vez. Não. O que me encantou mesmo não foi o fofíssimo ator que interpreta o papel de Marcelino, nem o seu enorme desejo de conhecer a mãe (já que a personagem é órfã, criada por 12 religiosos franciscanos). O que me enterneceu às lágrimas foi Jesus Cristo, que tem uma participação toda especial no longa-metragem. Não entrarei em detalhes, porque caso você não tenha assistido, não serei eu quem estragará essa doce, maravilhosa surpresa. Sim: Jesus em pessoa está no filme.

Tentarei expor o meu encantamento sem "entregar o ouro", como se diz.

8 de agosto de 2010

Todos nós merecemos uma Segunda Chance

Ao contrário do apóstolo Paulo, Simonal não teve a simpatia dos colegas

À esquerda, Simona vestido de Pelé, o rei do Futebol.
À direita, Pelé fantasiado de "rei dos palcos", Simona.
Dois ícones do Brasil dos anos 1960 e 1970

Imagem: Reprodução-Internet

Nota: Esta crônica foi escrita em fevereiro de 2010. A intenção era publicá-la no site da Canção Nova.


Acabei de assistir, pela 2ª vez, ao colorido filme Ninguém sabe o duro que dei, sobre a vida e a carreira do talentosíssimo cantor carioca Wilson Simonal. “Simona”, como era chamado, foi vítima de uma injustiça. Ele cometeu um erro e não é que tenha pagado o resto da vida por esse deslize. Foi pior, muito pior. O erro que cometeu foi deturpado e ele acabou pagando, à custa de sofrimento e solidão, por algo que não foi e não fez.

E o bonito no documentário é que seus filhos, Simoninha e Max de Castro, também cantores, garantiram que não têm mágoa e que esperam que o que aconteceu com o pai sirva de lição para as próximas gerações.