26 de agosto de 2025

Altos e Baixos

Foto de David Zhang (CC BY-SA 2.0)

Não é porque algo se empina
que finalmente chega ao topo:
há vezes em que o que declina
acaba dando maior gosto.
Veja o Sol: quando ele sopita
é que fulgura como poucos!

25 de agosto de 2025

Incauta

Foto de Joselodos

Frugalidade sem senão
requer uma certa prudência:
mesmo sendo boa a intenção,
às vezes beira a intransigência.

Veja a Lua: por opção
quase flerta com a indigência 
zanzando nua, sem roupão
sem ligar se isso é indecência!

24 de agosto de 2025

Sobre a Lua

Foto de Jakub Hałun (CC BY 4.0)

Quando o breu domina o espaço
e a luz não tem assento
pra quê o rosto disfarçado,
radiante há tanto tempo?
Se nenhum pobre coitado
notaria o seu tormento,
não seria mais sensato
no lugar do fingimento
optar por um só ato
que faz jus ao sentimento?

23 de agosto de 2025

Gula

Foto de Terry Ballard (CC BY 2.0)

Ei-lo de novo enchendo a boca inteira:
de toda dieta, passa longe.
À tardinha o Sol; mais cedo as estrelas
servem à nutrição do horizonte.

22 de agosto de 2025

Lua Cheia

Foto: Denali National Park and Preserve (CC BY 2.0)

Sua face radiante engana
já que traz uma agonia velada:
viver há muitas eras o drama
de prosseguir no escuro confinada.

21 de agosto de 2025

Poente

Foto de Николай Максимович (CC BY 3.0)

É erro de perspectiva
ceder loas a quem se apruma:
do Sol, a hora mais bonita
é justo quando ele se curva.

20 de agosto de 2025

Resiliência

Foto de Yevtushuk Victor (CC BY-SA 4.0)

À tardinha vai-se o Sol silente
levando um segredo pra tumba:
como continuar reluzente,
quando uma intempérie retumba?

19 de agosto de 2025

Privilegiada

Foto: Mehr News Agency (CC BY-SA 4.0)

Eis a Lua chegando ao poente
exibindo um dom que é muito raro:
manter sua cara reluzente
depois de passar a noite em claro!

18 de agosto de 2025

O Ocaso

Foto de Friedrich Haag (CC BY-SA 4.0)

Porque o Sol está abatido
assim meio sem energia
a noitinha com sangue-frio
abrevia-lhe a agonia
com um golpe bem-sucedido
negando sua luz às vistas
ao jogá-lo num precipício
sem direito a uma elegia!

17 de agosto de 2025

Pavio Curto

Foto de Susanne Nilsson (CC BY-SA 2.0)

A paciência é para poucos
(por que faz um rosto espantado?):
o dente-de-leão - tão fofo -
é exemplo bem-acabado
de que às vezes por nada - um sopro -
a cabeça vai para o saco!

16 de agosto de 2025

Laudemir Fernandes, o benquisto

Tela: A Adoração dos Pastores (entre 1650 e 1700) -
Autor Desconhecido

Um programa de televisão exibiu, décadas atrás, uma matéria sobre a invisibilidade urbana. Tratava-se da constatação de um pesquisador (ou pesquisadora?) de que as pessoas que trabalham uniformizadas - como o pessoal da limpeza - são invisíveis para os demais. Ou seja: há quem passe por elas sem cumprimentar, sem dizer "Bom Dia". É como se não existissem.

Na Palestina do século I, onde e quando Jesus viveu, havia um fenômeno semelhante. Só que os invisíveis, ou seja, aqueles que eram ou deviam ser ignorados, não vestiam uniformes. Eram simplesmente os "impuros". Nessa categoria, cabiam alguns profissionais, como os pastores; os doentes, como os leprosos; e as mulheres sob certas condições, como estarem menstruadas. Essa gente "impura" tinha de ficar à margem, longe das vistas.

Na manhã da última segunda-feira, dia 11 de agosto, o gari Laudemir de Souza Fernandes, o Lau, estava uniformizado. E ele ousou ficar visível. Ousou sair da margem do olhar do empresário Renê da Silva Nogueira Júnior e vir para o centro.

Diálogo

Foto de Thomas Bresson (CC BY 3.0)

"Nas alturas de seu cabo
o que ela terá em mente?
Não se incomoda um bocado
nem torce o nariz, silente,
para todo o estardalhaço
dos insetos logo em frente?"

"De jeito algum, ó meu caro,
pois toda flor é carente
e eles podem (não raro)
dar-lhes assim, de repente,
mil e um beijos e afagos
que vão deixá-las contentes!"