![]() |
| Tela: Coroado com Espinhos, Carl Bloch (1834–1890) |
"Cada um sabe onde o calo dói." O meu é na cabeça, pois há anos sofro de enxaqueca. Eu e o poeta João Cabral de Melo Neto. Eu e a filósofa Simone Weil. Por isso, quando nas leituras bíblicas no tempo da Quaresma menciona-se que puseram em Jesus uma coroa de espinhos e que batiam na cabeça Dele com uma vara, fico sensibilizada. A Bíblia não entra em detalhes. O Evangelho Segundo Marcos diz apenas isso. O resto fica para nossa imaginação. Teresa de Ávila usou a dela.
Num dia, dentro do convento, passou por um corredor e topou com uma imagem posta na parede que representa (até hoje ela existe) Cristo na coluna, atado com cordas, no momento em que é flagelado pelos algozes. O ensaísta Walter Nigg, no livro "Teresa de Ávila" (Edições Loyola, 1995), conta que Teresa "parou diante da estátua, descobriu como o sangue escorria em torrentes pelo corpo de Cristo e os tormentos que o homem das dores tinha de suportar. Subjugada pela contemplação da cena, dobrou os joelhos e caiu banhada em lágrimas".
Esse momento dividiu a vida da futura santa em antes e depois. Porque no alto de seus 40 anos de idade, e religiosa há duas décadas, a sua piedade até então era "medíocre", pois ela se perdia em "conversas frívolas", gostava de "novidades"... Enfim, uma mexeriqueira. Daquele momento em diante, ali mesmo em frente à imagem sacra, viveria como uma convertida. Nunca mais bisbilhotou. Nunca mais vacilou.
Muitos de nós, como ocorreu com Teresa, passamos décadas em letargia folheando a Bíblia e (talvez) lendo alguns versículos, participando das missas, rezando diante de estátuas e beijando os seus pés, mas nossa imaginação é fraca. Na Paixão, Jesus ficou "coberto de chagas, inundado de sangue, padecia as dores sem soltar gritos". Cristo sofreu, Se humilhou. Isso deveria nos tocar lá no fundo, deveria nos golpear, como Walter Nigg escreveu, feito "uma martelada". Conversão se dá assim.

