5 de maio de 2026

O Woodstock de Jesus

Foto: Reprodução Internet

Acabei de assistir no canal de TV Curta! ao documentário "Woodstock: Três Dias que Definiram uma Geração". Se não está familiarizado, Woodstock foi um festival de música que ocorreu nos Estados Unidos no ano de 1969, que reuniu cerca de 400 mil jovens e contou com as apresentações de gente como os guitarristas Jimi Hendrix e Santana, a cantora Joan Baez e o cantor Joe Cocker (que no evento entoou uma versão marcante da canção With A Little Help From My Friends, dos Beatles).

O que mais me tocou no documentário não foram Jimi Hendrix tocando o hino norte-americano ou Santana arrasando na música Soul Sacrifice ou o número de jovens que optaram por se despir pra ficar mais à vontade ou lidar melhor com o calor, e sim os percalços médicos e alimentares que ocorreram num evento daquela proporção, com uma quantidade de gente maior que a população de algumas cidades. Foram necessários muitos médicos, medicamentos e, claro, bastante comida.

Quanto à necessidade de médicos, o evento contou com o auxílio do Exército dos Estados Unidos, que levou profissionais e remédios. Quanto à falta de comida... Os caminhões que abasteceriam as barracas com alimento estavam "presos" num baita engarrafamento no entorno do festival. Então, a população local, ao ver na TV as cenas daquelas centenas de milhares de jovens com fome, comoveu-se e decidiu ela mesma ir até lá com o que tinha em casa: produtos enlatados, pães, presuntos e até dezenas de ovos. Um idoso se justificou: "Tenho um filho de 19 anos. Podia ser ele com fome. Decidi ajudar". Bacana, né?

Agora não tenho certeza, mas acho que no próprio documentário fez-se a comparação daquelas cenas de jovens compartilhando latas de salsicha etc. com nada mais, nada menos do que o milagre da multiplicação dos pães ou, como está na Bíblia Pastoral da editora Paulus, a "Partilha dos pães e peixes", evento bíblico no qual Jesus alimenta cerca de nove mil pessoas (de acordo com as duas partilhas narradas no Evangelho Segundo Marcos).

Por que a Bíblia Pastoral não chama de "milagre"? Aliás, o que é milagre? De acordo com um dicionário de que gosto muito, o priberam, trata-se de um "fato sobrenatural oposto às leis da natureza" e também de um "portento, maravilha, prodígio". O saudoso Padre Léo, fundador da Comunidade Bethânia, iria se apegar à segunda definição. Numa de suas pregações, provocou: "Por que a gente acha que milagre é só paralítico sair andando etc.? Eu ser capaz de abrir os olhos todos os dias de manhã, pra ver as maravilhas de Deus, não é milagre também?".

Nas duas partilhas dos pães e peixes, Jesus dá ação de graças, abençoa os alimentos e os parte. Bem aqui acontece o "milagre": a Sua partilha, a partilha de Nosso Senhor, estimula a partilha dos demais. Não é incrível isso? 

Nas duas multiplicações, há 7 alimentos: na primeira (feita em benefício dos judeus), são 5 pães e 2 peixes; na segunda (para os pagãos da região da Decápole, a qual reunia dez cidades gregas), são 7 pães e "alguns peixinhos". Conforme o teólogo e escritor Frei Betto, na Bíblia, o número 7 significa "muitos" ou "o que não se pode contar". No Evangelho Segundo Mateus, Jesus afirma que "os nossos pecados serão perdoados 'até setenta vezes sete', para expressar a misericórdia infinita de Deus". Ou seja: havia muitos pães e muitos peixes. Jesus começa a partilha; todos seguem o Seu gesto. Eis o milagre: a superação do egoísmo, do individualismo.

Em Woodstock, não houve registros de nenhum incidente grave. Nada de violência, nenhuma morte. Eram cerca de 400 mil jovens sob a égide do movimento hippie, que defendia o amor, a liberdade e a paz. No documentário, foi emocionante vê-los acomodados na terra, assistindo às apresentações no palco, cantando junto. Em ambas as partilhas dos pães e peixes, Jesus manda que as multidões se acomodem assentadas no chão. Em Israel, comer sentado é próprio de homens e mulheres livres...

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Atribuição: Ana Paula Camargo (acatolica.blogspot.com).
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