28 de março de 2018

O Jogo

Tela: Holsteinischer See, Mondschein (1847), Johann Georg Haeselich

Tão velha, e não dissimula!
Pro entorno todo é fato
que há anos dá as cartas
quem a tem na mão: o lago.

Não aprendeu ainda, a lua
que esconder o jogo é sábio:
se a aposta se esmigalha
em segredo, ajunta os cacos.


26 de março de 2018

Seleto

Tela: Girl with a Platter of Fruit - c. 1555 - Tiziano (Titian)

Para P. L.

Avaliam que ela desperdiça
sem pensar um bocado,
por ofertar tanta iguaria
a quem não está habituado.

Não sabem que se delicia
com um discurso adocicado
guardado na ponta da língua
pro paladar mais apurado.


24 de março de 2018

Descoberta

Tela: Intérieur, Gustave Caillebotte (1848-94)

Ao seguir o vestígio de desdita,
qualquer arremedo de Arqueologia
escava a intenção sob as vistas
na palavra que não vê luz do dia.


23 de março de 2018

Bárbaro

Tela: The Waning Honeymoon - 1878 - George Henry Boughton

Com a ajuda de um filtro
se passa, em tudo, revista.
Mas chega o dia - benquisto? -
em que uma mão enxerida
deixa o voile recolhido
e o familiar a uma vista
ganha contorno imprevisto.


21 de março de 2018

Indelével

Tela: Faaturuma (Melancholic) - 1891 - Paul Gauguin

Na mão, tem quem nos ponha
um mimo fortuito -
sem que esmolemos.

Se partem, e não retomam
ganha modos de chumbo
(mesmo volátil) com o tempo.


20 de março de 2018

Cavalheirismos

Tela: Sunset over the waves (1890), Mauritz de Haas

Quando dá a sua hora
põe seu intento oculto -
embora esteja de partida,
a onda acena num segundo.

Também, o adeus do dia
não dá margem pra susto:
o hemisfério enfim nota,
mas já é tarde pro luto.


19 de março de 2018

Arredio

Tela: Kornfeld im Mondenschein (circa 1830), Samuel Palmer

Para P. L.

Um uivo, por ele ouvido,
que era o único disposto;
um vulto, tão repentino,
porque se fez de absorto.
Um pretexto e o contíguo
já se afasta de todo -
mas nem no canto sombrio
estrela larga do posto.


29 de janeiro de 2018

Lázaros

Imagem: The Venetian Blind, from a painting by
Edmund C. Tarbell (1904)

A privação reserva as suas graças
só às almas que nunca se fartam:
nacos da paisagem que escapam
dos dentes da persiana mal-fechada
e a migalha, que a festim se equipara,
pra habitué de quem não dá nada.


Memorabilia 2

Tela: The Old Letters (1865), Marcus Stone

Na mente, há um museu revisitado
onde as entradas são disputadas
e lembranças vivem lustradas.
Tem ainda um depósito trancado
de coisas esquecidas, intocadas -
onde é um risco, após adentrado,
levar ao museu (mesmo ao acaso)
o que não devia ter vindo à baila.


Delicado

Tela: Cupid and Psyche (circa 1880),
John Roddam Spencer Stanhope

O amor entra pé ante pé
pra não ranger o assoalho
e o cético perceber.

Dispensa outras manhas ou arma:
acha alarmes no off
toda porta escancarada
lençol disposto na cama -

sua ação é tão esperada,
que nunca chega arrombando.


O silêncio

Tela: Lyndra by the Blue Pool, Dorset (1913), Derwent Lees

Dedo a cutucar costelas, pescoço e nuca.
Mãos que cortam o ar -
estripador sem assinatura.
O perigo está em todo lugar:
sala, cozinha e quarto,
onde chega a violar
(de luz apagada, tortura).
Qualquer coisa para contê-lo:
dose, bagulho, encontro às escuras.
A calma não faz companhia
pra quem se enche de falta:
é presença obtusa.
Ao redor, tudo cala:
motor, rojão, abelha miúda.
Só uma coisa toca
sem intervalo, regente nem partitura.
Com notas inaudíveis, porém agudas.


Ichthys

Tela: The Fisherman and the Syren (1856-58),
Frederic Leighton, 1st Baron Leighton

O peixe de que falam, ignoro.
Minha mira captura o que convém:
olhos inquietos,
escamas lanhadas,
barbatanas rudes.
Miúdos que escapam das vistas grossas,
mas que têm seu valor de mercado:
são iguarias também.
O peixe de que falam salta,
rabeia no ar, tem a carne nobre.
Eu preparo isca, anzol e vara
pra um feito de pormenores:
não fartam e me mantêm.